Uma caixinha de preciosidades


Eu queria, de verdade, colocar em uma caixinha alguns momentos e algumas pessoas. Guardá-las bem perto do meu coração. É tão ruim perdermos quem amamos. É revoltante. Não podemos fazer nada. A vida tem dessas coisas, a gente nasce e aos longos dos anos vamos perdendo as nossas principais referências. Com o tempo, não sentimos mais o cheirinho de café e bolo de chocolate das nossas avós, não escutamos mais os conselhos dos nossos avôs, perdemos um pouco da alegria de alguns tios e tias, ou seja, perdemos aquele abrigo que tínhamos quando éramos crianças. Perdemos um pouco a referência dos dias de natais, festas de aniversários. 

Era tudo tão mais legal quando éramos crianças. De repente, a vida vai se tornando mais séria e ao mesmo tempo mais insegura. Vamos descobrindo as partes obscuras do mundo, das pessoas. Percebemos que os nossos pais não são os heróis que sempre acreditamos que eram. Não que sejam os vilões da história, longe disso, mas são de carne e osso. Podem quebrar, podem errar. Continuamos precisando do colo deles, mas a cada dia que passa, vamos menos para ele. Começamos a construir as nossas histórias, os nossos caminhos e nada disso é fácil. Há alguns anos a nossa principal decisão era qual brinquedo levar para o colégio, hoje decidimos por caminhos que acarretarão consequências muito maiores do que não termos escolhido um brinquedo tão legal. 

É bom crescer. É bom amadurecer. É bom caminharmos com as nossas próprias pernas. Mas é triste que para isso tenhamos que abdicar de pedaços da gente. Nada é como antes. Nada nunca será como antes. Perdemos um pouco de nós mesmos ao longo dos dias, dos anos, mesmo que encontremos outros pedaços que ainda não estavam preenchidos. E vamos vivendo assim, perdendo e ganhando, reconstruindo vazios e tampando outros. Todos nós somos grandes estações principais com embarques e desembarques, sofrimentos e sorrisos, vivendo de saudades e a esperança de um dia encaixarmos cada quebra-cabeça nosso que se perdeu durante a trajetória do viver.  

Christina Corrêa da Fonseca.

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